A Mulher e o Amor Livre

De Protopia
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Amor Livre, Eros e Anarquia
Evelio Boal


Geralmente se tem uma ideia muito errada sobre esse ponto de ideal libertário que não é demais esclarecer.

Atualmente, o amor livre não pode ou é muito difícil que se desenvolva todas as condições nas quais se desenvolve a vida da mulher. Exige, para chegar este ato à uma feliz realização, que a emancipação econômica da mulher esteja nas mesmas condições que a do homem e que ela não tenha, no geral, que se subordinar aos caprichos dele.

Ouvimos dizer com muita frequência, quando se trata de um capitalista que tem muitas queridas, em tom humorista, que é partidário do amor livre. Nada tão absurdo como esta ideia, pois ela engloba a prostituição e o adultério, ambas as coisas que no amor livre não tem espaço, posto que não podem existir, porque desde o momento que alguma dessas coisas ocorra, deixa de ser amor livre.

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A união dos seres tem de ser instintiva; há de responder a um sentimento de carinho, de amizade, gerado pelo trato ou pela simpatia; é compenetração,é justaposição dos seres que se unem espontaneamente sem outros convênios e vínculos que a lei natural os impõe, e essa mesma lei natural pode causar a separação quando por parte de um dos dois indivíduos se sente a necessidade de mudar de vida.

Atuando desse forma, não há enganação de um por parte do outro; o engano pode efetuar-se unicamente no matrimônio civil ou canônico, que impõe um jugo e a necessidade de suportar essas faltas que tentam ocultar cuidadosamente enquanto estão namorando; coisas que nunca fazem de boa fé, dando lugar a divergências que quase sempre terminam em adultério.

Quando se chega a este extremo, o homem - dizem os moralistas usualmente - pode permitir-se o recurso de obter uma mulher por dinheiro, em outra casa qualquer, sem que a dignidade de sua prórpia mulher sofra danos materiais; mas para ela é diferente, pois está submetida a vontade do homem porque ele a mantém, e por tanto tem abrangente direito a negar-lhe o desfrute da vida.

Mas como a força da natureza tem mais consistência e é mais potente que a autoridade convencional do marido, ela se rebela e por todos os meios trata de proporcionar-se os prazeres que o matrimônio efetuado lhe nega.

Este é o primeiro passo para o adultério que pode terminar, em uma mulher carente de recursos, bens monetários ou intelectuais, na prostituição.

Como consequência, vemos frequentemente nos jornais informativos, colunas inteiras dedicadas à narração de fatos que intitulam criminosos e que são chamados de paixões ou honra, e que na minha concepção não são mais que resultados lógicos do ambiente pútrido e infectado desta sociedade que concede direitos a uns e não aos outros.

Pois se esses males estão na mente de todos, por que não colocar remédio jogando assim todos os preconceitos e convencionalismos que não levam a nada se não até a desgraça da maioria dos seres?

Somos amantes e defensores da união livre ? Pois para que essa se verifique sem obstáculos devemos colocar a mulher em condições econômicas iguais aos homens e o amor livre irá se impor por si só, posto que é um absurdo sem nome que um indivíduo, homem ou mulher, se condene a viver eternamente infeliz ou em perpétua discórdia com o companheiro que foi tocado por sorte.

A união dos seres sem mais pactos nem vínculos que dos de amor significa a inutilidade das instituições civis e religiosas e é um grande passo para a Anarquia.

Artigo publicado no Suplemento de La Protesta de 30 de janeiro de 1922, Buenos Aires, com o título de "El amor libre".



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